Por uma espiritualidade profética, sob a inspiração de João Batista


Por uma espiritualidade profética, sob a inspiração de João Batista


Data: 30/08/2020

“... quando João repreendeu Herodes, o tetrarca, por causa de Herodias, mulher do próprio irmão de Herodes, e por todas as outras coisas más que ele tinha feito, Herodes acrescentou a todas elas a de colocar João na prisão.” – Lucas 3.19,20

Há, no calendário cristão ocidental, um dia de celebração pelo nascimento de João batista e outro pelo seu martírio. Este último celebrou-se ontem, vinte e nove de agosto. Conforme a história que já conhecemos, João Batista denunciou publicamente o adultério do rei Herodes Antipas com Herodias, que além de sua prima era mulher do seu irmão Filipe, e, por causa disso, foi preso e decapitado (cf. Mt. 14. 1-12; Mc. 6. 14-29; Lc. 9. 7-9). Mas não me parece razoável reduzir a vocação do profeta à questão da vida afetivo-sexuais do rei. Lucas nos dá um detalhe que faz toda a diferença. A denúncia do adultério parece ter sido apenas a gota d’água, porque, conforme registrado no trecho de Lucas em epígrafe, o profeta denunciava todas as coisas más que o rei praticava. De acordo com o historiador Flávio Josefo, João denunciava implacavelmente a megalomania e tirania do rei. Este, temendo que a multidão que seguia o profeta iniciasse uma insurreição, mandou que o detivessem num presídio de segurança máxima, sob vigilância constante.

A maioria dos judeus havia abandonado o ensino do Senhor. A religião estava corrompida. Por isso, embora de origem sacerdotal, João rompeu com o templo e desenvolveu seu ministério profético no deserto, lugar onde Deus havia feito um pacto com seu povo. Era necessário refazer o caminho. Voltar ao deserto, arrepender-se dos pecados, renovar a aliança com Deus e então construir uma nova sociedade de justiça e a paz. O sinal da conversão era o batismo. Naquele tempo, rituais de purificação eram comuns. Mas o batismo de João era bastante peculiar. A mera adesão religiosa e o ritualismo para aplacar consciências culpadas eram denunciados pelo profeta. Fazia-se necessário mudar radicalmente de vida e produzir frutos de Justiça. O povo deveria abandonar a competição e o acúmulo e viver em cooperação e partilha. Os agentes fiscais deveriam abandonar a extorsão financeira. Os militares deveriam parar de cobrar propina, produzir provas falsas e utilizar expedientes violentos em suas abordagens. João sabia, porém, que era apenas um precursor. Uma transformação tão profunda assim seria obra do próprio Deus, por meio de alguém mais forte, a saber, seu primo, Jesus de Nazaré, o Redentor de todas as coisas.     

Ao celebrarmos a memória de João Batista, somos conclamados à conversão profunda, que implica também em arrependimento dos nossos pecados e renovação da aliança com Deus. Mas a verdadeira conversão não se reduz a meras mudanças subjetivas de indivíduos. Ela tem profundas implicações sócio-políticas. Como o Batista, vamos romper com a religião corrompida pelo poder. Esse modelo templocêntrico indiferente aos graves problemas que têm esgarçado o nosso tecido social precisa ruir. Rompamos com ele e construamos comunidades de fé que levem a sério os imperativos éticos do Deus Libertador no chão da vida em sociedade. Somos chamados a denunciar o sistema de competição e acúmulo produzido pela lógica capitalista e a construir novas relações sociais de partilha, fraternidade, solidariedade e equidade. Também somos conclamados a erguermos nossas vozes como profetas contra a corrupção dos agentes públicos, as estruturas militares violentas e os políticos megalomaníacos e tirânicos, sem medo de perder a cabeça. Sim, sob a inspiração de João Batista, precisamos urgentemente de uma espiritualidade destemida, que não teme a morte, pois é animada pelo Ressuscitado!

Do seu amigo e pastor, Danilo Gomes.

 

*Com informações de radar da Bahia

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