Grupo LGBT contesta proibição, mas acata decisão de Kalil sobre performance


Grupo LGBT contesta proibição, mas acata decisão de Kalil sobre performance


Data: 20/07/2019

Depois do prefeito Alexandre Kalil cancelar a performance Coroação de Nossa Senhora dos Travestis durante a Virada Cultural de Belo Horizonte, coletivo de artistas Academia TransLiterária divulgou uma nova nota em rede social dizendo que a "censura é um fato e que não há o que fazer por parte da Secretaria de Cultura, da Fundação Municipal de Cultura e de nossa parte."

Filmagem

O coletivo esteve nesta manhã na Secretaria Municipal de Cultura em reunião com representantes da Fundação Municipal de Cultura, incluindo o secretário Juca Ferreira e responsáveis pelo Instituto Periférico. Durante o encontro, o grupo teria contextualizado a trajetória e as ações artistico-sociais promovidas pelo coletivo numa tentativa de reverter a proibição, que o grupo considera "censura pelo prefeito Alexandre Kalil e Arquidiocese de Belo Horizonte."

Mais cedo, uma das integrantes da Academia TransLiterária escreveu no Facebook que o grupo estava sendo atacado e que manteria a apresentação. "Mas, isso foi antes de sermos barrados e censuradas", disse ao Estado de Minas.

“É importante ressaltar que Minas Gerais continua sendo o estado que mais mata travestis no país e pessoas trans no mundo. Mas, nós seguimos na luta! E vamos vencer no amor”, acrescentou a nota.  Veja a íntegra do documento:

 

 

 

A PETIÇÃO


Mais de 15 mil pessoas haviam assinado uma petição, até o fim da manhã desta sexta-feira, na que pedia a anulação do evento "Coroação da Nossa Senhora das Travestis", programado para acontecer neste sábado, durante a Virada Cultural de Belo Horizonte. "Senhor Prefeito Alexandre Kalil, os cristãos e todos os homens de boa vontade vêm pedir o cancelamento do evento 'Academia TransLiterária', previsto para acontecer no dia 20/07, sábado, na Virada Cultural de Belo Horizonte. A razão é que foi autorizada pela Secretaria de Cultura de Belo Horizonte, a realização de uma blasfêmia 'Coroação da Nossa Senhora das Travestis'. Tal ato é uma afronta grave e direta contra o sentimento religioso dos cristãos, majoritários no Brasil e em Belo Horizonte", diz o texto. A petição também informa que o ato, se realizado, poderá ser tipificado como crime, previsto no artigo 208, do Código Penal. "Eis a tipificação: 'Vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso: Pena – detenção, de 1 (um) mês a 1 (um) ano, ou multa'", continua a mensagem publicada na petição.

Ainda segundo o documento, a "referida coroação, financiada com dinheiro público, envergonha e assusta os belo-horizontinos, os cidadãos ordinários e católicos. Autorizar tal vilipêndio mancharia a história da cidade e tornaria criminoso o uso de verbas públicas que, obtidas pelo suor dos cidadãos, seriam empregadas em favor de um grupo truculento que chama de arte o desrespeito, a blasfêmia, o acinte, a gozação, enfim, o brincar com o sagrado".

a Arquidiocese de Belo Horizonte emitiu nota, dizendo que toda a comunidade, incluindo o arcebispo e presidente da CNBB, dom Walmor, bispos auxiliares, padres, diáconos, religiosos e religiosas, ministros e evangelizadores "rebatem, com indignação, a ação preconceituosa e criminosa de desrespeito à fé cristã católica, o evento de título 'Coroação a Nossa Senhora dos Travestis'".

O texto diz ainda que se exige e se espera por parte das autoridades a suspensão do evento, "por ser incontestável fomento ao preconceito e à discriminação, desrespeito aos valores da fé cristã católica, devendo saber que estão comprometendo gravemente a paz e o exigido relacionamento cidadão respeitoso". 

"Não é admissível instrumentalizar Nossa Senhora, desrespeitando-a para se promover um evento que se diz cultural, mas, na verdade, configura-se em agressão à fé cristã católica. Não se cultiva tolerância a partir do desrespeito", prossegue a nota, que ainda faz uma convocação para os católicos se manifestarem, exigindo respeito e a suspensão imediata do espetáculo.

POSICIONAMENTO DO KALIL


Por volta das 11h30, o prefeito Alexandre Kalil se manifestou no Twitter, a respeito da polêmica: "Defendo todas as liberdades. Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém. Isso não é cultura". Posteriormente, o prefeito cancelou o evento por meio da conta do chefe do executivo no Twitter. Para justificar sua decisão, Kalil alegou defesa da liberdade religiosa. "Sou católico, devoto de Santa Rita de Cássia. Fiquem tranquilos, ninguém vai agredir a religião de ninguém", afirmou o chefe do executivo. 

Por meio da assessoria de imprensa, o Instituto Periférico, organização da sociedade civil (OSC) selecionada por edital para realizar a Virada Cultural junto com a Prefeitura, informou: "A organização da Virada Cultural de Belo Horizonte informa a suspensão da performance da Academia Transliterária, uma das 447 atrações previstas na programação. Ao ser selecionada por meio de um chamamento público, em nenhum momento houve intenção de ferir a crença religiosa de qualquer pessoa ou grupo. Mas na medida em que uma parte da sociedade sentiu-se duramente ofendida, optou-se, então, pela suspensão da atividade. A Virada Cultural de Belo Horizonte é um evento que preza pela pluralidade e que tem como objetivo a convivência pacífica e harmônica entre todos os cidadãos".

Durante coletiva que ocorrida nesta quinta-feira (18) sobre a Virada Cultural, o comandante do 1º Batalhão da Polícia Militar (PM), o tenente-coronel Micael Henrique informou que “não terá restrição este ano." O secretário Municipal de Cultura, Juca Ferreira, também pontuou que: “não tratamos de censura. Vamos garantir o direito de manifestação política do cidadão. O palco é do artista”. 

Cancelada pelo prefeito Alexandre Kalil na Virada Cultural, a performance já foi realizada em um evento também promovido pela PBH. Em 22 de setembro de 2018 ela foi apresentada no Festival Internacional de Teatro (FIT-BH). A performance foi vista no chamado Ponto de Encontro, espaço criado no Parque Municipal para receber apresentações de teatro e música do evento. 

KALIL NA 22ª PARADA LGBT


Diante da multidão que curtia a programação da 22ª Parada do Orgulho LGBT em Belo Horizonte, na tarde do último domingom (14), o prefeito disparou três conselhos, como mensagem final de seu breve discurso sobre igualdade e ocupação da cidade. "Primeiro, (digam mais) 'não sei', porque isso é libertador. Depois, virem para quem está ao seu lado e diga 'eu te amo'. E terceiro: 'F...-se' os que pensam o contrário. F...-se eles todos", disse, arrancando aplausos do público. Antes, Kalil havia mencionado que "ninguém manda nesta cidade a não ser o povo de Belo Horizonte". Segundo organização, 250 mil pessoas participaram do evento.

Fonte: Site https://www.uai.com.br/app/noticia/e-mais/2019/07/19/noticia-e-mais,249091/grupo-lgbt-contesta-proibicao-mas-acata-decisao-de-kalil-sobre-perfor.shtml